Medellín fez parte de meu roteiro de viagem que englobou mais duas cidades na Colômbia em janeiro de 2015, Bogotá e Cartagena, e a escolhi para ser assunto neste post por ter sido até hoje uma das cidades que mais me surpreendeu e marcou positivamente. A cidade mais violenta do mundo nos anos 1990 trilhou um caminho de transformação pouco mais de 20 anos depois, se tornando a cidade mais inovadora do mundo, em competição realizada pela ONG americana Instituto Urban Land em 2013. Esta é Medellín, que encanta pelo clima de “primavera eterna” e pela simpatia de seu povo, os “paisas”, que logo me cativaram como as pessoas mais “buena onda” dessa viagem.

A grande virada na história recente de cidade passou pelas mãos e feitos do prefeito Sérgio Fajardo a partir de 2004, em uma Medellín que passou a ter modelos de políticas governamentais destinadas ao crescimento sustentável. Desde então ocorrem intervenções que se dirigem aos locais mais pobres, e não ao embelezamento das áreas com maior valor turístico. A política foi de qualificação do entorno do cidadão, criando espaços públicos de qualidade e mais tarde educação de qualidade.

Cinco dias foram dedicados a esta cidade que confesso tinha um certo receio em visitar, fruto sem dúvida das histórias do passado de uma Medellín onde o narcotráfico se enraizava nos anos 1980 iniciando uma era de violência jamais vista, além de ser o quartel general de Pablo Escobar, poderoso narcotraficante colombiano (que muitos conheceram através da série “Narcos”, mas salienta-se que minha visita foi bem antes da série estourar xD).

Tentei não me preocupar com esta fama (assim como todos os viajantes não devem se preocupar, aliás, isso em toda a Colômbia, um país maravilhoso) e segui para a cidade da eterna primavera após 5 dias em Bogotá. Na época, optei em voar desde o aeroporto El Dorado até o Aeroporto José Maria Cordova, que não fica propriamente na cidade de Medellín, mas sim na vizinha Rio Negro, afastado do centro da cidade como nosso Guarulhos em São Paulo. Mas é possível ir de ônibus também, inclusive muitos viajantes o fizeram, como um canadense que encontrei em Medellín que estava no mesmo hostel que eu em Bogotá.

Após ler as orientações de como chegar ao centro da cidade, ou diretamente no bairro em que ficaria hospedado, o badalado El Poblado, cheguei em Rio Negro e já ao desembarcar já se notava um grande fluxo de pessoas entrando em pequenos ônibus (ou busetas!) que iriam até o Centro, mais precisamente até próximo ao Hotel Nutibara. Segui o fluxo e assim embarquei rumo ao centrão. O trajeto foi bastante sinuoso, em meio a uma bela paisagem: no decorrer do caminho Medellín vai aparecendo aos nossos olhos que adentram este grande vale onde ela está situada, é uma visão bem impressionante, que nos mostra uma imensidão de construções sem fim.

Após chegar ao ponto final, algo bem familiar dos centros das grandes cidades da América do Sul: muitos comércios e pessoas transitando por todos os lados. Em meio a elas, o metrô, o único da Colômbia, que me levaria a mais uma experiência interessante já ao chegar em Medellín e que experimentaria outras diversas vezes. Sabia que para chegar em El Poblado (que chamaria de “Gringolândia”, pois a maioria dos estrangeiros fica por lá, e é um dos melhores bairros da cidade) precisaria desembarcar exatamente na estação Poblado e depois seguir a pé até o Happy Buddha Boutique Hostel .

Foi o que fiz, comprei um bilhete por 1.500 pesos colombianos (R$ 1,65 aproximadamente) e lá estava eu no metrô, sozinho, com minha companheira, uma mochila de 60 litros, tentando embarcar no metrô no começo da tarde. Sim, a princípio foi um desafio, pois estavam em sua maioria lotados os vagões, algumas tentativas e finalmente entrei  e assim se iniciou minha curta viagem, que passou por algumas construções em Medellín além do próprio Rio Medellín, até finalmente desembarcar em Poblado.

METRO
Metrô de Medellín, claro, em um horário tranquilo

O metrô é extremamente limpo, e possui um detalhe que nunca presenciei: em cada anúncio de estação, se falavam os pontos turísticos que ficavam próximos daquela estação. Achei isso fantástico e muito útil, o que mostrou a preocupação da gestão local com a orientação dos turistas na cidade. Depois de estar literalmente sendo “o estranho” no metrô por ser talvez o único turista a usar aquele meio de transporte naquela hora, finalmente cheguei em El Poblado e em minha hospedagem, após me perder e sair do metrô no lado errado do Rio Medellín, mas graças a simpatia e senso de ajuda com o próximo dos paisas, no hostel cheguei.

Sobre o Happy Buddha Boutique Hostel (diária: 30000 COP, ou aproximadamente 33 reais), a estrutura é excelente, possui área de convivência com mesa de ping pong, sinuca, espaços para sentar e relaxar, é possível comprar passeios como o da Laguna de Guatape (que falo mais adiante) , um bar excelente e muitas atividades de interação, ou seja, tudo a facilitar. Porém só houveram dois inconvenientes. Fiquei no dormitório de 6 camas, e ele era bem apertado, mais que o normal dos que já havia ficado nesta com essa quantidade de camas.

Outro fator que me incomodou bastante foi a questão de toalhas, nesta viagem estava no esquema de alugá-las, e o Happy Buddha para minha sorte as fornecia. Porém sempre que estava querendo uma a staff informava que estavam na lavanderia ou secando, e isso ocorria sempre nos horários mais críticos, final da tarde começo da noite, quando geralmente chegava dos passeios e queria tomar um belo de um banho para aproveitar a noite em El Poblado, jantar etc. Isso não ocorreu só comigo, inclusive. No segundo dia a mesma saga. No terceiro desisti e acabei comprando uma toalha . Mas de forma geral o hostel é muito bom, com mercado e lavanderia próximos, cafés e outras centenas de hostels, além de ser quartel general de um pub crawl animadíssimo e bem gerido pelas meninas do Poblado Pub Department.

Andar pelas ruas de Medellín me pareceu bem tranquilo, não me deixando inseguro na maioria das vezes. Mesmo no Centro tive essa sensação, claro que os locais davam conselhos sobre determinados horários e locais que não eram muito aconselháveis caminhar sozinho, principalmente na região que compreende o Parque de Las Luces, um belo e moderno espaço público que conta com 300 enormes postes luminosos, 2100 refletores e 170 lâmpadas.

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Parque de Las Luces

Outros locais centrais bacanas de se visitar são a Plaza Botero e o Museu de Antioquia. Na primeira, diversas obras de um dos artistas mais famosos da cidade e da Colômbia, Fernando Botero, e no segundo também, mas na forma de pinturas com formas volumosas, assim como as esculturas de bronze na praça, características marcantes das obras de Botero.

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Museu de Antioquia

Em El Poblado, no período da noite, é comum ver policiamento (que considerei em Bogotá bem maior). E quase sempre você verá algum paisa com a camisa do Atlético Nacional, que alimenta junto com o Independiente de Medellín o que chamam de “”El Clasico Paisa””, partida entre as duas principais equipes locais. O clima na cidade é muito agradável, somente uma tarde dos dias que estive lá que choveu e foi aquela chuva rápida, que logo depois já dava lugar a um tímido sol no céu.

PLAZA BOTERO
Plaza Botero

Mas que outras coisas vamos encontrar em Medellín? Digamos que a propaganda carro-chefe do Ministério de Turismo colombiano na época, “Colômbia, o único risco que há é o de você querer ficar” fez-se justa. Há inúmeras opções de lazer e entretenimento, o que favorece a estada na cidade por pelo menos cinco dias tranquilamente. Medellín pode não ter o apelo e belas paisagens que uma Cartagena de Índias, por exemplo, mas mostra uma rica história em um destino que chamaria de “destino de transformação social” por tudo que passou anos atrás. Vejamos algumas das atividades que não devem ser puladas de forma alguma na cidade:

1) Free Walking Tour

Já havia lido ótimos comentários deste Walking Tour e todas as minhas expectativas se superaram. Simplesmente este foi um dos melhores que já realizei. O esquema é o velho e bom “pague o quanto acha que vale”, baseado em gorjetas, mas digamos que o serviço é tão bom que merece mais que apenas uma gorjeta padrão. Promovido pelas equipe do Real City Tours, o tour é em inglês e percorre os parques, praças e ruas mais tradicionais do centro de Medellín.

São quatro horas que passam voando, tanto o conhecimento dos guias sobre a cidade e a interação que proporcionam. Observa-se grande paixão dos mesmos quando falam da cidade, confesso que em certos momentos até me senti emocionado tamanha a bela história de superação que a cidade viveu. Fica o alerta: Reserve assim que chegar na cidade, pois os passeios costumam ser cheios (pela qualidade principalmente). Os tours ocorrem de segunda à sexta em dois períodos, de manhã (encontro 8:54 na bilheteria da Estação Poblado ou 9:14 na bilheteria norte da Estação Alpujarra) e a tarde ( encontro 2:24 na bilheteria norte da Estação Alpujarra). Aos sábados ocorre às 09:49 com encontro na bilheteria norte da Estação Alpujarra.

Site: http://www.realcitytours.com/#!free-walking-tour/c1hbi

Página no Facebook: https://www.facebook.com/freewalkingtourmedellin

2) Parque Arvi e Metrocable

Meu maior intuito em conhecer o Parque Arvi na verdade não era bem conhecer o parque em si, e sim a forma como se chega até ele, que é através do famoso Metrocable, um teleférico de alta capacidade que é integrado ao metrô da cidade. Além da experiência em si de estar neste meio de transporte, é possível observar toda a paisagem nos arredores, mostrando uma Medellín dentro de um vale com muitas, muitas favelas entre outros tipos de edificações. Além de ser algo turístico, serve obviamente para interligar a população local a locais como o Bairro Santo Domingo, onde antigamente sequer se poderia andar de forma tranqüila por lá, cenário totalmente diferente hoje.

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Metrocable

Para chegar ao parque, é necessário estar no metrô e atingir a estação Acevedo (Linha A), depois acessar por meio de transferência a linha K do Metrocable e em seguida a Linha L, em um trajeto de aproximadamente 20 minutos. As taxas são de 4200 pesos por trecho (R$ 4,65 Aproximadamente).

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Parque Arvi

Após algum tempo, as casas dão lugar a muito verde, o que muda completamente o cenário, nos trazendo para dentro da Reserva do Parque Arvi. Chegando na entrada do parque há algumas barracas que vendem lembranças e comidas típicas antioquenhas, como o fluxo de pessoas costuma ser bem alto principalmente nos finais de semana, é possível caminhar por lá sem preocupações quanto à segurança. No meu caso, dei sorte, fui seguindo um grupo que possuía um guia e assim pude conhecer até que bem o parque.

3) Parque Explora e Jardim Botânico:

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Aquário – Parque Explora

O Parque Explora rende uma visita de várias horas, principalmente para adoradores da ciência e de interatividade. A missão do Explora é inspirar, comunicar e transformar mediante cenários de interação que contribuam para a apropriação pública do conhecimento científico, tecnológico e social necessário para a construção de uma sociedade melhor. O espaço oferece não só ambientes para jovens e adultos, mas também para as crianças, como aquário e planetário. Talvez seja um dos símbolos da transformação de Medellín e de suas atuais características inovadoras.

Ingresso custa 23000 COP (aproximadamente 36 reais) e o parque funciona de quarta à sexta, das 8:30 às 17h30, e sábado, domingo e segundas com feriado das 10 às 18h30.
Já o Jardim Botânico é um local agradável e com bastante gente nos finais de semana, dá para combinar juntamente com a visita ao Parque Explora. Próximo da Estação Universidad, funciona de segunda a domingo, das 9 às 17h, sendo gratuita a entrada. Honestamente achei ele mais fraquinho do que o da capital Bogotá, mas se tiver convicto de ir ao Parque Explora vale a visita combinada.

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Jardim Botânico de Medellín

4) Cerro Nutibara e Pueblito Paisa

Pueblito Paisa é uma réplica de um povo típico antioquenho, que fica localizado no topo do Cerro Nutibara. Por lá você verá construções tradicionais, lugares com comidas típicas e tendas com venda de artesanatos. Mas o principal é e a vista que proporciona em seu mirante. De lá você consegue ver uma bela parcela de Medellin, incluindo o aeroporto Olaya Herrera, uma espécie de Congonhas da cidade e marcado por ter sido o local onde morreu Carlos Gardel, um dos expoentes do tango argentino, após acidente aéreo no local.

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Medellín do Cerro Nutibara, com a pista do Aeroporto Olaya Herrera ao fundo

Recomendo ir depois das 17 horas, pois dessa forma você conseguirá ver Medellín sem a noite cair, e depois com as milhares de luzes acesas, um verdadeiro espetáculo. Muitos autóctones (ou habitantes locais) frequentam este lugar, recomenda-se pegar um taxi para chegar até o topo, já que há pavimentação e acesso para tal.

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Pueblito Paisa

5) Tours frutas exóticas

Este passeio é organizado pelo mesmo pessoal do Free Walking Tour, é bacana para provarmos tudo que há de mais legal em Medellín quanto a frutas exóticas. Dura 2h30 e custa 40000 COP (45 reais, aproximadamente). Inclui a degustação de todas as frutas e uma arepa com suco no final do tour, ocorrendo o tour de segunda a sexta, às 9h45.

Site: http://www.realcitytours.com/#!exotic-fruits-tour/c3bo

6) Laguna de Guatape

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El Peñol

Este tour é sem dúvidas um dos mais recomendáveis a se fazer em Medellín!! Na verdade, não necessariamente na cidade, mas nos arredores dela. Na época contratei o passeio no próprio hostel que fiquei e é um day-tour que vale muito a pena.

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Represa de Guatape

Paguei 69900 COP (Cerca de 78 reais) pelo passeio que incluía o transporte, almoço típico, visita à Marinilla (a “Esparta Colombiana, como é conhecida, por ter sido uma das localidades que produziram mais resistência na época da batalha da Independência colombiana), a Pedra de El Peñol (uma formação monolítica formada há milhares de anos, que fica a 2135 m acima do nível do mar, devemos subir um montão de degraus até chegar ao topo, mas vale muito a pena, já que lá vemos toda a represa de Guatape, rendendo ótimas fotos), Guatape e tour na represa em embarcação. Para subir ao topo da pedra de El Peñol, paga-se 10000 COP (11 reais, aproximadamente) não-incluídos no valor total do passeio.

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Peligro

Medellín S2

Medellín me impressionou por diversos motivos, e quando falo que foi a segunda cidade que conheci que mais gostei até hoje (A primeira é Buenos Aires, meu amor s2), me olham com aquela cara de  “Medellin?? Wtf”. Percebe-se um grande orgulho dos paisas para com a cidade, e isso se reflete em alguns itens como por exemplo o Metrô. Os Paisas possuem grande orgulho dele, principalmente por ter sido construído durante a época de grande caos que vivia a cidade, de certa forma se transformou em um símbolo de algo que resistiu ao caos e que merece ser preservado (tanto que os vagões e estações são limpíssimos como mencionei no começo do texto).

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Começo da noite em Medellín

Medellín se deparou com a questão: Como combater a violência? A solução: Diminuir a violência e a converter em oportunidades sociais, evitando assim que alguém busque nos meios ilícitos uma alternativa de vida. A construção dos Parques-biblioteca em locais onde antes predominava o medo como a Biblioteca España (uma belo edifício situado no citado bairro de Santo Domingo) ajudam a semear a consciência de que na educação está a chave para todo o processo de transformação social necessário, apostando assim em converter o conhecimento nas comunidades em atividade produtiva.

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As casas coloridas de Guatape

Se Medellín hoje prospera (mesmo com os problemas que ainda possui e que toda a América vive) é muito por conta da capacidade que tiveram todos os atores (setor público, setor privado e população) de entender o valor social e a capacidade dos mesmos,  apesar dos problemas limitantes e históricos que possuíam. Os problemas foram usados  para criar e provar novos métodos de desenvolvimento urbano e inclusão social.

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Medellín do Metrocable

Se eu indico Medellín como destino: ÓBVIO QUE SIM! Foi uma das experiências que me levaram a fugir do lado turista por alguns momentos para me colocar no lugar de um paisa, pois assim podemos começar a dar valor a algumas coisas de nosso cotidiano, e como não, começarmos a observar o exemplo de Medellín para mudarmos um pouco nosso entorno.

Epísódio bizarro da estada em Medellín: caminhar a noite por El Poblado significa também encontrar muitos vendedores de doces (sim, doces MESMO, balas, pirulitos, chicletes etc), devem vender bem por lá, mas o interessante é notar que eles rapidamente mudam de mercado caso não queiramos comprar algo. Um deles me abordou oferecendo e disse a ele que não queria. Vendo minha negativa, ele logo começou e me oferecer outros itens digamos, alternativos (entenda-se, marijuana e afins). Achei bizarro principalmente pelo fato de outros vendedores começarem a falar alto que estavam comercializando estes itens mediante negação de outros turistas.