Acho que muitos já se depararam com aqueles comentários de que somos “ricos” por viajar com certa frequência. Antes confesso que até deixava isso no ar, nem discutia, mas há momentos que temos que argumentar até para ajudar a criar uma nova consciência nessas pessoas.

Evidentemente a formação familiar ajuda a perpetuar conceitos como este. Pois para gerações mais antigas que a nossa, o que vale como realizações muitas vezes é a aquisição de bens, como carro, casa, dentre outros. Mas não só a minha geração (sou de 1989, um Millennial) como as subseqüentes se preocupam cada vez mais em não mais adquirir estes bens, (pelo menos não de forma imediata) mas sim investir em experiências. Na realidade, a aquisição destes bens faz parte de um ritual de passagem que demonstra para as gerações mais antigas emancipação, ou finalmente “estar bem de vida” como muitos já devem ter ouvido.

Para começar a constatar a realidade de que gastamos com experiências muito mais do que com bens, a plataforma Evenbrite conduziu estudo nos Estados Unidos onde levantou que 76% dos Millennials escolheriam gastar com experiências do que com bens. 72% gostaria de aumentar estes gastos. Isso se traduz também com simples ações do dia-a-dia. Por exemplo, há aquela feira gastronômica onde você poderá consumir diversos alimentos que talvez nunca tenha provado, mas antes de ir, pensa duas vezes pois irá gastar um dinheiro que poderia guardar para comprar aquele tênis bacana, por exemplo. Este tipo de pensamento não é freqüente para um Millennial, já que a feira seria uma oportunidade de experienciar, valendo o custo financeiro já que o custo “experiencial” da coisa toda seria imensurável.

Mas voltando ao problema inicial, muitos podem ser os motivos de acharem que somos ricos por optar em investir em experiências em viagens. De certa forma, as nossas experiências “cegam” muitos por não mostrar a realidade em que vivemos, ou seja, sim, não temos aquele carro bacana para se locomover com conforto para uma festa, recorrendo ao transporte público e vivendo, pasmem, uma nova experiência (!!!) a cada vez que isso ocorre. Claro que se pudéssemos, também teríamos o carro, a casa, a roupa mega bacana, mas tudo nos guia para um só caminho: o da escolha.

Eu escolhi, por exemplo, pegar todas as minhas economias e investir em uma viagem de 23 dias pela América auto-planejada que foi até hoje uma das maiores experiências e aprendizados que já tive, e que é impossível calcular em valores monetários o que significou. Esse senso de realização, de que é possível, de tornar palpável uma viagem como essa talvez seja outro fator que por desconhecimento da facilidade que é atualmente viajar, faça com que as pessoas do “você tá rico, viajando sempre!!” não percebam que elas também podem ser parte desta dinâmica.

Outra questão que também me acometeu muito nos últimos anos é a questão dos destinos. “Ahhhh mas por qual motivo você não vai para a Europa??” Bolívia??? Jamais iria… Peru?? O que ele vai fazer lá???? Não deixa não… Estas são só algumas coisas que já ouvi, mas sabe aquela coisas de que não se pode julgar o livro pela capa? É exatamente isso, se desprender de eventuais pré-conceitos, pois já vivi tanto a situação do lado positivo (um lugar que falaram para não ir que era muito bacana) quanto do negativo (um lugar que não era tão bom quanto falaram). Se quero ir para a Europa? Claro que quero, um dia, mas tudo tem seu momento. Há destinos que possuem determinado perfil de viajantes, e eu confesso que agora, não tenho esse perfil. Então continuo descobrindo novos lugares e me relacionando com pessoas diversas, pois estas experiências não estão nos guias de viagem.

Então fica o recado: se sou rico? Não sou. Apenas fiz uma escolha que foi viajar e experienciar.6ac76f_93fcd1ab05c242908bbf9f7407677aaf