Uma das questões que comumente chegam  até mim é quantos dias ficar em cada cidade em um roteiro (e se possível gastando muito pouco). Isso pelo fato de que claro, a pessoa quer ficar o suficiente para conhecer os principais pontos e já ir para a próxima cidade. Mas como estimar isso? A seguir vamos discutir um pouco da questão dos dias em cada cidade. Será que vale a pena fazer 5 países em 10, 15 dias, unicamente para poder usar isso como um “prêmio” ou realização obtido pelo viajante? Até que ponto essa “corrida” para conseguir visitar o maior número de cidades possíveis em menos tempo é benéfica ou prejudicial nos aspectos sociais e na relação visitante-visitado? Essa é uma discussão que vamos começar a desmembrar a partir de agora.

Um dos argumentos dos short-backpackers, ou mochileiros de curto tempo e viajantes em geral, é a falta de maior tempo disponível (muitas vezes possuem 20, 30 dias de férias apenas) para conhecer várias cidades/países. Mas aí que pergunto: Será que vale mesmo a pena passar rapidinho por alguma cidade e perder a chance de se aprofundar para provar a real essência do lugar?

Fazer tudo muito rápido pode trazer duas impressões, como em qualquer viagem: a boa e a má de uma localidade, mas se ocorrer algo ruim em um lugar que havia muita expectativa, construiremos a imagem de que a cidade é ruim, ou que não gostamos dela. O contrário também é válido, e tudo depende muito  do perfil do turista. Posso amar uma cidade, enquanto outro turista pode odiar a mesma cidade. Somos diferentes, assim como nossas experiências, e o tempo na cidade sem dúvidas é um fator que influencia essa opinião, já que quanto maior a experiência na cidade, maiores os argumentos e a autoridade para dissertar sobre ela

Outro item comumente apontado é a economia: já que estamos na região, por que não visitar a cidade ou país “y”? Vai saber quando vamos voltar… Sim, de fato isso é verdade, mas há justamente a questão do tempo agindo novamente. Será que vale a pena incluir esta cidade para uma visita de dois dias, onde o ideal seria no mínimo 5? Aconteceu algo comigo similar quando fiz o clássico mochilão Peru, Bolívia e Chile. Fiz 21 dias por estes países e não fiz a inclusão de Cusco na rota. O motivo: tempo. Vislumbrando os prós e contras, pesou o fato de que eu queria (e quero) muito fazer a trilha Salcantay, e além do fator de aclimatação, a trilha leva alguns dias (5 mais ou menos), fora conhecer um pouco a cidade de Cusco em si fazendo walking tours e visitando outros locais.

No meu caso acrescentar essa semana não seria possível pelo tempo que tinha disponível, mas se me batesse uma “loucura”, poderia ter ficado dois dias por lá. Seria o ideal? Não, e eu teria que voltar, muito provavelmente gastando novamente passagem e tudo mais, ou seja, deixar de visitar a cidade nessas condições me pareceu um melhor negócio, já que não iria me desfazer de nenhuma outra visita no roteiro que tinha planejado.

Uma das coisas que mais gosto em viagens é interagir com os moradores locais. (ou usando um jargão técnico turismês, os autóctones), já que essa é uma das melhores formas de imersão dentro da cultura de uma cidade ou país. Vale citar o que comenta dessa relação entre visitantes e visitados o sociólogo suíço Jost Krippendorf.

Para ele, a criação de guetos ou bolhas turísticas, em que a  experiência  do  visitante  é  manipulada  para  o  “desencontro”  com  o residente e sua realidade é reprovável.  Isso por conta da artificialização que muitos destinos sofrem, numa montagem que quase sempre se distancia da realidade. Dessa forma, normalmente já somos guiados para dentro dessas bolhas turísticas tendo tempo em um destino, imaginem não o possuindo e devendo “correr” para visitar os principais atrativos?

Essa é uma realidade que impacta os locais que se vêem de certa forma invadidos por visitantes que mudam de dia a dia, onde as relações estabelecidas na maioria das vezes é de cunho puramente comercial. Ou seja, possuindo menos tempo, as melhores opções para cumprimento de visita de atrativos é se envolver nessas bolhas pela facilidade de serviços que disponibilizam para o turista e permitem fazer as visitas de forma rápida e sem muita pesquisa.

Mas e para o turista? O impacto pode aparecer na forma de um fator de estresse que de certa forma é oposto ao que o turista busca (já que a viagem é motivo de fuga da realidade, para “descansar” do cotidiano), onde tudo tem que funcionar bem para que ele visite “x” atrativos no dia e não perca aquela selfie no local mais turístico da cidade para registrar que lá esteve. A não realização de alguma atividade (ou possibilidade de não realização) acarretará em sentimento negativo e fator de tensão que poderá ser transposto a uma opinião geral da cidade. Mas lembrem-se, quem que não tinha muito tempo para visitar a cidade mesmo?

Por isso que muitas das vezes em meus roteiros deixo pelo menos um dia off sem atividades em alguma cidade, isso para o caso de algo dar errado na programação, ou mesmo para um bom ócio e observação do que faz a comunidade local em um dia normal. É bom até para organizar nossas coisas, ou socializar com outros viajantes e aprimorar a leitura de próximos destinos, entre outras coisas.

Então, levantados estes pontos, como decidir quantos dias ficar em cada cidade? Evidentemente isto depende de quais são as suas preferências no que se refere ao que pretende visitar. Costumo levantar os atrativos em uma lista, usar ferramentas como o Google Maps para avaliar a localização, passando também por uma pesquisa individual de cada atrativo sobre quanto tempo se leva em média para visitá-los. Este item é primordial, assim como os deslocamentos entre as localidades.

Tendo esse cálculo e levantamento feitos, você verá quantos dias precisará para conhecer determinada cidade. E acrescentar o day-off que comentei anteriormente. Também é cabível considerar os horários de chegada e saída na cidade e se o hostel em que estará hospedado faz custódia da bagagem após horário do check out, já que assim você não precisa pagar outra diária ou meia por  sair mais tarde, por exemplo, no final da noite.

Em suma, você viajante independente tem a liberdade de ficar quantos dias quiser em cada cidade/país. Deve-se perder a “statusalização” das viagens, ou seja, ir só para falar que foi para assim ser colocado em um plano “superior” socialmente de status que unicamente mostrará o quanto você não disfrutou totalmente de um destino como poderia e que mais te transformará em um “atleta” das viagens.

Então, considere o real motivo de sua viagem e o nível de envolvimento que pretende ter com a cultura daquela cidade ou do país. Afinal, uma viagem não é para gastarmos, é sim para acumularmos, não é? Acumularmos experiências e vivência e aumentarmos nosso capital intelectual.