Turistas e Comunidade local: uma relação para engrandecer nossas viagens

Uma das relações mais complexas quando se fala em viagens é a que envolve os turistas e a comunidade local das cidades que visitam. De um lado, pessoas buscando sua fuga do entorno habitual, em momentos de férias (trabalho às vezes também), do outro, pessoas vivendo suas vidas normalmente, ou quase normalmente, tendo em vista que a presença destes turistas dependendo das proporções que aparecem causam grandes impactos nestas populações.

Há também aqueles visitados que usufruem da atividade turística como forma de ganhar economicamente e assim produzir recursos para…pasmem…também viajar, em alguns casos haha. Na realidade estes ganhos podem funcionar para este fim, mas normalmente ajudam a manter a vida destas comunidades locais.

Já vivenciei muito dessa relação em diversos aspectos, então considerei pertinente discutir um pouco essas idéias neste post, até para ajudar a criar uma consciência em novos viajantes e claro, colocar todos para pensar nessa relação entre turistas e comunidade local, principalmente nos impactos que podemos gerar como turistas.

Um visitado (ou autóctone) que possui algo a ganhar de turistas irá tratá-lo de forma diferente do que outro que não observa ganhos nessa relação. Estudiosos como britânico John Urry e o suíço Jost Krippendorf já exploraram bastante questões envolvendo tanto um lado como o outro, e nesse post vamos discutir algumas delas, ouvindo também as opiniões de alguns viajantes que gentilmente nos auxiliaram nessa discussão.

Urry coloca o olhar do turista como algo que é construído baseado em opiniões (Hello Trip Advisor) e conselhos de pessoas sobre um lugar, que constróem uma “bolha ambiental” que normalmente é o limite entre o relacionamento com os locais. Essa bolha caracterizaria algo que é o limitador entre o turista e a realidade, pois muitas vezes o que é vendido a ele não é necessariamente autêntico, influenciando portanto na percepção real da localidade.

Também é suscitado por Urry que o olhar do turista varia de acordo com o grupo social, sociedade e período histórico, possuindo moldagem através das mídias como cinema, TV, literatura, vídeos, entre outros, que ajudam a criar uma expectativa quanto aos locais turísticos que serão visitados que posteriormente serão confirmados ou não (chamado também de confirmação do clichê).

Por fim, uma das idéias de Urry que mais concordo e inclusive é fácil vivenciar é a questão da liberdade que o turista acha que tem. São aqueles pensamentos: “Ah, não estou no meu país mesmo, vou extravasar!!!” Isso pelo fato do turista buscar exatamente externar o estresse vivido na realidade por meio das práticas vivenciadas em uma viagem. Esse “extravasar” acaba por ser extremamente prejudicial para o relacionamento com os locais, pois normalmente esses limites ultrapassados causarão transtornos onde os visitados podem passar a enxergar os turistas muitas vezes como agentes causadores da desordem (nossa, pareceu nome de filme rs)

Comentei que alguns bloggers me ajudaram nessa discussão, transcrevo a seguir algumas dessas opiniões. A primeira foi a Ângela, do blog Apure Guria. Para todos que entrei em contato, realizei duas perguntas básicas, âmbas para avaliar o lado do turista,  onde a primeira foi o quão importante é para você estar em contato com as populações locais nos lugares que visita e a segunda sobre alguma situação onde pessoas locais te trataram de forma desrespeitosa. Segundo a Ângela, no que tange a primeira questão,

 “Gosto muito de ver como o pessoal vive, como utilizam as coisas, desde os meios de transporte até os ingredientes para uma receita. Acho que senti isso no sudeste asiático e no Peru, em outros lugares que passei não vivi tantas experiências por serem lugares mais turísticos onde os locais já estavam meio fora dessa cultura”.

Dessa fala tira-se uma confirmação do que Urry comenta sobre a falta de autenticidade, quanto mais turístico, mais essa noção se confirma, e menor o grau de interação. Sobre a segunda,

 “De forma direta não, só furtaram meu celular em Santiago, mas pelo que eu vi é comum”.

Esta fala está associada a um problema que é latente principalmente em países em fase de desenvolvimento, a questão de segurança. Infelizmente alguns locais enxergam os turistas como “minas de dinheiro”, logo, estão vulneráveis a situações de violência e consequentemente, prejudica-se ainda mais qualquer relação turista-locais.

A segunda pessoa que nos auxiliou nessa discussão foi a blogger australiana Megan Jerrard, do site Mapping Megan. Indagada sobre a primeira questão, ela comenta que

 “É incrível. Eu acredito que interagir com os locais oferece uma experiência mais imersiva, e nos permite entender mais da cultura, história e personalidade de um destino e das pessoas que lá vivem. Eu também acredito que é uma grande maneira de quebrar preconceitos e estereótipos, além de promover a diversidade cultural e a aceitação de todas as pessoas”.

A confirmação dos clichês que comentei mais acima possui forte relação com os estereótipos criados em um destino que a Megan comentou. Os clichês são confirmados se o estereótipo que temos se confirma. Eu diria que não tive essa confirmação do clichê na Argentina, por exemplo, de um povo que trata de forma não amistosa os brasileiros, já que quando estive por lá, muito pelo contrário, tive uma relação boa onde se buscava deixar de lado qualquer possível “rivalidade” para assim se aprender com costumes dos dois países.

Sobre situações de desrespeito, Megan comentou que:

“Não, muito pelo contrário, eu percebi que viajar te mostra o quão legal as pessoas são ao redor do mundo, e os locais que encontrei sempre foram amigáveis e dispostos a ajudar. Eu percebi que em locais muito turísticos onde o Turismo se tornou um incômodo os locais são menos amigáveis com você, e podem ser impacientes e rudes, entretanto a maioria considera que o Turismo dá  um grande alento econômico. Visitando áreas mais rurais onde o turismo é incomum, encontrei pessoas amigáveis e muito curiosas. Acho que a relação mais não-amigável que tive foi na França quando um agente de serviço ao cliente estava bem impaciente e foi rude comigo por conta da minha falta de habilidade em falar francês.”

Mais uma vez a questão de cidades mais turísticas onde as relações se perdem mais facilmente. Eu diria que a paciência de um local com um turista é determinada até pela quantidade de turistas que ele lida diariamente. Se são muitos, muitos mesmo, essa relação tende a ser deteriorada mais facilmente, caso contrário surge até um encantamento e um sentido de curiosidade, mais propício para troca de experiências.

Por fim, também questionamos a Vaneza, do blog Vaneza com Z, que sobre a primeira questão comentou:

“Os lugares sem as pessoas, nos deixam uma sensação de que falta algo. Mesmo que estejamos cansados da correria e caoticidade das capitais e grandes centros, as pessoas são fundamentais para o desenvolvimento e nosso encantamento numa viagem. Quer sejamos turistas, visitantes ou viajantes, como queiram denominar, o que levamos de mais bonito é o convívio com as pessoas. Observar seus hábitos, suas falas, seus gestos, suas músicas, tudo isso fica em nossa memória e sempre vem a tona e nos faz lembrar que viajar é muito mais que ver paisagens e se deslocar de um ponto a outro. Nos faz lembrar também que uma nação não é superior a outra. Todos nós padecemos dos mesmos males, quer em maior ou menor grau, em resumo, somos iguais em locais diferentes.”

Essa fala evidencia que sim, somos todos diferentes, e devemos respeitar o próximo e suas especificidades. É triste ouvir relatos de pessoas que o máximo de contato com locais que tiveram foi com um garçom de restaurante (e é pior ainda quando sequer é um restaurante típico do local). As pessoas fazem o lugar, e como turistas, carregar esses relatos e vivências só nos engrandece e nos ajuda a divulgar cidades para futuros visitantes (lembram do olhar do turista baseado em opiniões citado por Urry no começo do texto?).

Quanto a segunda questão,

“Não lembro de ter sido desrespeitada. Acredito que nunca fui. Boa parte das minhas viagens fiz e faço sozinha e sempre tenho cautela e atitudes preventivas. Aliás, agora lembrei! Em Ushuaia, sul da Argentina, um dono de hostel me desrespeitou, mas tive uma atitude firme e séria e ele entendeu a minha posição.”

Um local prestando serviço que trata um cliente mal já acaba por ser fruto de uma possível massificação de turistas com que ele lida, e claro, da personalidade do mesmo.

Baseado em toda essa discussão e relatos, o que fica é que não é só viajar. É sentir a cidade que visitamos também através das pessoas, respeitando também a privacidade delas. Elas são o motivo daquele lugar apresentar os traços que possui. Mesmo com toda a evolução tecnológica que tivemos até hoje, muitas dessas vivências ainda são peculiares ao contato pessoal turista-visitados, e temos que saber que este elemento deve fazer parte de nossas viagens.

Está sozinho naquela praça de Santiago e tem vários senhores conversando? Por que não puxar um papo?

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Referências:

URRY, John. O Olhar do Turista: lazer e viagens nas sociedades contemporâneas, 1996. Cap. 1 pgs 15 à 32.

KRIPPENDORF, Jost. Sociologia do Turismo – Para uma nova compreensão do lazer e das viagens Cap. 2 pgs 35 à 102

Agradecimentos aos blogs:

Apure Guria

Site: http://apureguria.com/

Facebook: https://www.facebook.com/apureguriaa

Mapping Megan

Site: https://www.mappingmegan.com/

Facebook: https://www.facebook.com/mappingmegan

Vaneza com Z

Site: http://vanezacomz.blogspot.com.br/

Facebook: https://www.facebook.com/vanezacomz/

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